19.3.07

Memória caipira

Único registro de som e imagem da dupla Pena Branca e Xavantinho é lançado em DVD no pacote do programa Ensaio, da TV Cultura.

Não há título dispensável na coletânea do programa televisivo Ensaio, do diretor Fernando Faro para a TV Cultura. Vários programas vêm sendo reeditados em DVD pela gravadora Trama, mas alguns desses ultrapassam o mero interesse musical e podem ser considerados verdadeiros documentos da música popular brasileira. É o caso deste Pena Branca & Xavantinho, programa gravado em 1991. A memória dos cantadores e violeiros vai desfiando um cancioneiro caipira de tempos imemoriais entrelaçadas com o que se convencionou chamar de MPB.

É o primeiro e único registro em som e imagem de uma das grandes duplas caipiras brasileiras, terminada em 1999 com a morte de Xavantinho (Ranulfo Ramiro da Silva). Sobre as questões levantadas em off pelo diretor, Pena Branca e Xavantinho vão desvelando histórias de vida, da carreira e rememorando grandes canções em closes quase impressionistas. Doze músicas são relembradas por completo, de clássicas como Casinha de Aço (Teddy Vieira) e Amo-te Muito (João Chaves) a outras mais modernas tornadas clássicas por eles, casos de Calix Bento (Tavinho Moura) e O Cio da Terra (Milton Nascimento e Chico Buarque). Os irmãos mineiros (de Uberlândia) são acompanhados da dupla Kapenga (viola) e Betto Sodré (percussão).

Na conversa dos cantores e compositores, vão sendo resgatados não só um rosário de canções memoráveis, mas a história de um país já esquecido por personagens inesquecíveis, apesar de ambientados num tempo nem tão distante assim. Os irmãos lembram das cantorias em família, entre os anos 60 e 70 no Triângulo Mineiro, e de figuras extra-musicais que acabaram importantes na formação deles (como de resto na de um Brasil ingênuo). Aparecem nessa lista o ator, produtor e diretor Mazzaropi (Amácio Mazzaropi, 1912-1981). Relembram o pioneiro cineasta com uma toada homônima de Jean e Paulo Garfunkel. Em meio ao depoimento de Xavantinho, o diretor Fernando Faro incluiu um trecho do filme Sai da Frente, de Mazzaropi.

O Coronel Hipopota também é lembrado como personagem importante na carreira de Pena Branca e Xavantinho. Hipopota (Maximiliano Carneiro, 1916-1981, produtor cultural, homem de rádio e TV que atuou também na região Centro-Oeste com o programa República Livre do Cerradão) foi quem praticamente lançou os irmãos cantadores e violeiros no rádio, em Uberlândia, sugerindo-lhes o primeiro nome artístico: Peroba e Jatobá. Era 1962 e Pena Branca e Xavantinho se auto-intitulavam José e Ranulfo. Entre uma e outra lembrança, a cumplicidade musical estabelece-se na troca de olhares e de vozes (Pena Branca e Xavantinho trocavam com naturalidade quem fazia a primeira e a segunda voz - às vezes até durante a execução da música).

NA LIDA
Outras três músicas são lembradas, apenas em trechos, incluindo a primeira composição de Xavantinho (Carro de Boi) e compositores parceiros que integraram com eles as famosas caravanas de Rolando Boldrin, nos anos 80. Boldrin viajava o Brasil com o shows do programa Som Brasil e muitos artistas a bordo. Com a morte de Xavantinho, Pena Branca não desistiu da carreira nem se tornou um "cantor romântico". Manteve a linha de trabalho com o irmão e lançou outros dois discos-solos. Um deles, Semente Caipira (Kuarup), acabou premiado com o Grammy Latino de melhor álbum sertanejo, em 2001. "Tenho repertório pronto para um novo disco, que negocio com a Kuarup. Algumas músicas são coisas inéditas que guardo do mano", disse José Ramiro Sobrinho, o Pena Branca, referindo-se à obra do irmão Xavantinho.

Radicado em São Paulo, Pena Branca segue fazendo dois tipos de shows. Um em trio, acompanhado pelo baixista Ricardo Zoi e a percussionista Priscila Brigante, e outro com o grupo Viola de Nóis, de Uberlândia. O líder do grupo, Tarcisio Pinto, disse que segue fazendo shows do espetáculo A Viola no Picadeiro, que conta, além de Pena Branca, com a participação de Inezita Barroso. O show é montado com o grupo Pontapé de Teatro e resgata o ambiente de circo, outrora o primeiro palco dos grandes nomes da música caipira no Brasil.

Pena Branca & Xavantinho
Gravadora: Trama
Preço médio: R$ 25,00

17.3.07

O sonho da razão produz monstros

GOYA NO MASP

Pela primeira vez fora da Espanha, gravuras de Goya oferecem ao público paulistano um vertiginoso mergulho nas luzes e sombras da lucidez e da loucura que marcariam a arte moderna, de cuja gênese o realismo feroz do mestre espanhol foi determinante.

Desembarcam, neste domingo (18), no Masp, 218 gravuras de Francisco de Goya, pintor que retratou a alma da Espanha na virada do século 18 para o 19 e inaugurou o modernismo nas artes com feroz realismo. Ao longo de sua trajetória artística que, como também na biográfica, foi da lucidez à loucura, é possível observar o impacto de revoluções políticas e sociais que abalaram a Europa e mudaram para sempre a arte no mundo.

Trata-se de itinerância inédita, já que as séries Caprichos, Desastres da Guerra, Tauromaquia e Disparates ou Provérbios nunca foram expostas fora da Espanha. Esta oportunidade única para os brasileiros verem de perto as gravuras mais significativas de Goya faz parte das comemorações dos 60 anos do Masp que atravessa crise financeira estrutural há 12 anos e deposita nesta exposição a principal esperança de boa bilheteria em 2007.

Em sono profundo
Goya quis despertar a Espanha do sono da ignorância. É essa a crítica em sua gravura mais famosa, parte dos 80 trabalhos que compõem a série Caprichos: em El sueño de la razón produce monstruos, um homem aparece dormindo enquanto morcegos e corujas espreitam a seu redor. Mesmo sendo pintor da corte espanhola, ele mantinha os olhos mirados na França, de onde vinham as ondas da Grande Revolução que estremeceram a modorra dos velhos impérios adormecidos.

As gravuras dessa primeira série destilam o ódio de Goya pelo que ele mais detestava em seu país: a ignorância, a vulgaridade, a pobreza de espírito. A dor que sentia era a dor de um homem que amava sua terra, mas enxergava nela uma série de "hipocrisias consagradas pelo tempo". A crítica contundente aos costumes da época chamou a atenção da Inquisição, que mais tarde censuraria parte de seu trabalho.

Com o ideário da revolução já instalado, o cenário altera-se. Goya decepciona-se com a violência das tropas napoleônicas, que chegam à Espanha em 1808. Destina-se, então, à produção de uma série de trabalhos que denunciam os horrores da guerra. As 80 gravuras da série Desastres da Guerra não têm o mesmo impacto que a tela El Tres de Mayo, emblema de Goya afixado na parede do Museo del Prado em Madri, mas dão uma idéia da percepação acurada e sensível do artista que enlouquecia à medida que o sangue tingia o solo espanhol.

O período entre 1814 e 1816, marcado pela escalada das ameaças da Inquisição, força o refúgio de Goya a um tema menos controverso. A série Tauromaquia retrata, em 40 gravuras, as célebres touradas espanholas. Tema tradicional para outros artistas do país, na obra de Goya ganha fulgor pela riqueza de detalhes, pelos efeitos luminosos, e pela deflagração dos contrastes que reforçam a dramaticidade do embate entre homem e touro.

A série que fecha a exposição do Masp, Provérbios ou Disparates, traz 18 trabalhos já marcados pela loucura dos últimos anos de vida de Goya, que se exilou na França após um período de reclusão na Quinta del Sordo, casa cujas paredes cobriu com suas visões mais grotescas. Essa última série retrata monstros, espíritos e outras figuras sombrias que permeavam os sonhos do pintor.

As gravuras da Coleção Caixanova é a segunda exposição sob a curadoria de Teixeira Coelho, à frente do museu desde setembro do ano passado. As gravuras em cartaz no museu a partir de domingo pertencem à instituição financeira espanhola Caixanova e podem ser vistas até 20 de maio. São Paulo é a primeira cidade a receber a mostra, que depois viaja para Buenos Aires, Cidade do México, Miami e Nova York.

Serviço:
MASP - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateubriand
Av. Paulista, 1578 - Cerqueira César - São Paulo - SP
De 18 de março a 20 de maio - de terça a domingo, das 11h às 18h
R$ 15,00 (inteira) e R$ 7,00 (estudante), gratuito para menores de 10 anos e maiores de 60 anos
Informações: 11 3251 5644

16.3.07

160 anos do poeta Castro Alves (parte 2)

Só após a vinda da Família Real, em 1808, o Brasil pôde ter máquinas de imprensa legalizadas - antes qualquer impresso era perseguido, proibido, as máquinas quebradas, os jornalistas, gráficos e escritores presos. No tempo de Castro Alves ainda era recente a abertura ao impresso e a monarquia também tinha seus aparatos de censura, contra esta, o poeta escreveu O Livro e a América numa clara alusão à liberdade de imprensa - no sentido do periódico e do livro -, à educação popular e ainda fez uma homenagem ao inventor, do século 15, que construiu a primeira máquina de impressão, o genovês Guttemberg:

Filhos do séc'lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vós mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro - esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro

(...)

Por uma fatalidade
Dessas que descem do além,
O séc'lo que viu Colombo
Viu Guttemberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...

Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto -
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe - que faz a palma,
É chuva - que faz o mar.

O poeta via na imprensa uma forma de falar para milhões e descrevia assim, em Deusa Incruenta, a sua grandeza ''divina'':

Tem hoje por tribuna imensa - a eternidade,
Por Fórum - o universo! e plebe - a humanidade!
A seus pés - as nações! os séculos - em redor!

Castro Alves também foi um dos primeiros a defender o voto feminino, que só foi conquistado na Constituição de 1934. Em Carta às Senhoras Baianas, publicada no periódico O Abolicionista em abril de 1871 e declamada na Sociedade Abolicionista que ajudou a constituir, por ocasião da campanha de arrecadação de dinheiro para a compra de alforrias, defende assim:

''A terra que realizou a emancipação do homem, há de realizar a emancipação da mulher. A terra que fez o sufrágio universal não tem o direito de recusar o voto de metade da América.
Este voto é o vosso.
É o voto dessas mães de família que aprenderam no amor de seus filhos a ternura pelas crianças.''

Lutou contra as guerras, para ele só o mundo em paz teria um ''iluminado porvir''. Durante a Guerra Franco-Prussiana (1870-71) a colônia francesa na Bahia organizou o Comité du Pain, onde Castro Alves recitou No Meting du Comitê du Pain para auxiliar na arrecadação de donativos aos mutilados, órfãos e viúvas da guerra:

Filhos do Novo Mundo! ergamos nós um grito
Que abale dos canhões o horrisono rugir,
Em frente do oceano! em frente do infinito
Em nome do progresso! em nome do porvir!

(...)

Não; clamemos bem alto à Europa, ao globo inteiro!
Gritemos liberdade em face da opressão!
Ao tirano dizei: Tu és um carniceiro!
És o crime de bronze! - escreva-se ao canhão!

Em sua estadia no Rio de Janeiro em 1868, leu para o escritor José de Alencar o drama Gonzaga e algumas poesias. O escritor logo indicou uma visita do poeta a Machado de Assis em carta que passa a seguinte impressão:

''Recebi ontem a visita de um poeta. O Rio de Janeiro não o conhece ainda; muito em breve o há de conhecer o Brasil (...) Palpita em sua obra o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da pátria, que faz os grandes poetas, como os grandes cidadãos. Não se admire de assimilar eu o cidadão e o poeta, duas entidades que no espírito de muitos andam inteiramente desencontradas''

Machado de Assis não demorou a responder a carta de José de Alencar após a visita de Castro Alves:

''Ouvi Gonzaga e algumas poesias (...) Não podiam ser melhores as impressões. Achei uma vocação literária, cheia de vida e robustez, deixando antever nas magnificências do presente as promessas do futuro. Achei um poeta original. O mal da nossa poesia contemporânea é ser copista.''

Sua obra é mais conhecida pelas poesias que mostravam a situação do negro escravo e se manifestava contra esse tipo de trabalho forçado. Assim temos a radical Bandido Negro:

Somos nós meu senhor, mas não tremas,
Nós quebramos as nossas algemas
Para pedir-te as esposas ou mães.
Este é o filho do ancião que mataste.
Este é o irmão da mulher que manchaste...

Oh! Não tremas senhor, são teus cães.
Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Através dos versos Castro Alves mostrou o dia a dia do negro escravo, como em A Canção do Africano:

O escravo calou a fala,
Por que na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Para não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!

Mostrou também como os negros chegavam ao Brasil de forma violenta, através de O Navio Negreiro, que tem como subtítulo Tragédia no Mar, o clima da vinda forçada de gerações:

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres suspendendo as tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doidas espirais...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Foi um entusiasta dos quilombos e, para o de Palmares, fez Saudação a Palmares, mostrando a garra com que aqueles negros construíram a resistência à escravidão:

Palmares! a ti meu grito!
A ti, barca de granito,
Que no soçobro do infinito,
Abriste a vela ao trovão,
E provocaste a rajada,
Solta a flâmula agitada,
Aos urros da marujada,
Nas ondas da escravidão!

No final de 1868, em uma caçada, em São Paulo, Castro Alves sofreu um acidente com uma arma, que na sua cintura disparou no calcanhar esquerdo. O ferimento se complicou e foi preciso amputar o pé, mesmo sem anestesia, serrando-o - já que uma machadada estilhaçaria os ossos do restante da perna. Pouco apareceu em público nessa situação. Sua tuberculose se desenvolveu e foi seu pesadelo até a morte. Seu último pedido foi ver o sol que brilhava na janela perto de sua cama. Morreu em Salvador, em julho de 1871 aos 24 anos, sendo autor de imensa obra literária em defesa do Brasil e seu povo, contra a escravidão e pela República, pela paz e contra a guerra.

Ler Castro Alves é um caminho espinhoso. Analogias com a mitologia antiga, palavras que no século 21 não usamos mais, construção invertida das frases são características da poesia romântica daquela época. Mas vale a pena o esforço para sentir a contribuição de um jovem poeta às lutas do povo brasileiro.

Estes 160 anos do poeta Castro Alves não podem passar em branco. Elevar a figura do poeta hoje é uma resistência cultural nos tempos em que a cultura imperialista pasteuriza e descaracteriza a produção da cultura nacional e popular. Parabéns,Castro Alves, sua poesia ainda influencia o povo brasileiro e sua juventude.

* Fernando Garcia é historiador e membro do Centro de Estudos e Memória da Juventude (CEMJ)

15.3.07

160 anos do poeta Castro Alves (parte 1)

Castro Alves, o poeta abolicionista de O Navio Negreiro, autor de um único e célebre livro, viveu apenas 24 anos — o suficiente para se tornar um dos mais influentes escritores brasileiros. Para lembrar os 160 anos de seu nascimento, o Vermelho lança, nesta quarta-feira (14), uma série de três artigos sobre o poeta baiano.

Castro Alves (1847-1871) O primeiro texto é do historiador Fernando Garcia, do Centro de Estudos e Memória da Juventude (CEMJ). Relata influências e temas na obra de Castro Alves, contextualizando sua poesia. A segunda parte de seu ensaio será publicada na quinta-feira. A série se encerra na sexta, com o artigo “As múltiplas atualidades de Castro Alves”, do mestre em literatura Everaldo Augusto, vereador em Salvador (BA) pelo PCdoB. Boa leitura!

160 anos do poeta Castro Alves

Por Fernando Garcia *

Neste 14 de março comemoramos o aniversário de 160 anos do poeta Castro Alves (1847-71). Nascido na Fazenda Cabaceiras na então freguesia de Muritiba, perto de Curralinho (BA), filho do Dr. Antonio José Alves e Clélia Brasília da Silva Castro (o sobrenome Brasília foi uma homenagem à pátria recém-libertada).

Antonio Francisco de Castro Alves chamado na sua infância por Cecéu, se tornou um dos maiores poetas brasileiros; Poeta da Abolição, Poeta dos Escravos são seus codinomes merecidos por vasta obra em defesa da abolição da escravatura no Brasil.

A história de Castro Alves começa antes mesmo de seu nascimento. Sua família influenciou de forma determinante nas suas poesias e no seu pensamento revolucionário dentro das marcas da nascente burguesia nacionalista ascendente naquele período do Império. Seu avô materno, José Antonio da Silva Castro, foi major nas lutas de independência na Bahia subordinado ao general Pedro Labatut – reconhecidamente um dos responsáveis pela expulsão dos últimos portugueses resistentes no ano de 1823.

O major Silva Castro comandou o batalhão dos “Periquitos” (seus uniformes eram verde) que incluía sertanejos e a valente Maria Quitéria. Na obra de Castro Alves o “2 de julho”, data marco daquela expulsão, esteve presente em poesias e homenagens, como nesta Ao Dois de Julho recitada no teatro São João, na Bahia, em 1867, em que lembra das batalhas e de seu avô, o major Silva Castro:

Vós sois os cedros da História,
A cuja sombra de glória
Vai-se o Brasil abrigar.

E nós que somos faíscas
Da luz desses arrebóis,
Nós que somos borboletas
- Das crisálidas de avós

Mas antes ainda, aos 17 anos, em outro Ao Dois de Julho, já proclamava:

E hoje o dedo de Deus escreve ufano:
Tremei, tiranos desta triste lenda;
Livres, erguei o colo soberano!

Quando estava em São Paulo, em 1868, Castro Alves recitou no Teatro São Paulo outra poesia em homenagem a esta data, Ode ao Dois de Julho, mas antes de começar disse algumas palavras como gostava de fazer e neste caso agradou ao público paulista quando traçou uma ponte entre Salvador e São Paulo e mostrou como entendia a unidade nacional no episódio da independência da seguinte forma:

“O Ipiranga é irmão do Paraguaçu. O 7 de setembro é irmão do 2 de julho. Não há glória de uma província, há glória de um povo. É sempre o Brasil herdeiro augusto dos heróis, esses pródigos sublimes.”

E iniciou a sua declamação onde sugere uma marca de contrários:

Não! Não eram dois povos que abalavam
Naquele instante o solo ensangüentado...
Era o porvir – em frente ao passado,
A Liberdade – em frente à Escravidão,
Era a luta das águias – e do abutre,
A revolta do pulso – contra os ferros,
O pugilato da razão – com os erros,
O duelo da treva – e do clarão!...

Outro elemento familiar do poeta que muito o influenciou foi seu tio paterno João José Alves. Aventureiro, comandante de milícias populares, nacionalista ferrenho, João José, sempre que se metia em confusões na rua, corria à casa do irmão, para a alegria de Cecéu, que gostava de ouvir as histórias do tio lutando capoeiras, discutindo com conservadores, falando sobre a independência do Brasil.

Um dia foi a família, mais João José, assistir a uma peça no Teatro São João. A platéia aristocrática exibia jóias e roupas caras, no pano de fundo do palco uma pintura que exibia Tomé de Sousa chegando ao Brasil e índios com cara de subservientes. João José pulou ao palco, tirou uma faca da cintura e rasgou toda pintura. Entre aplausos e vaias, a confusão tomou conta do teatro, sob o olhar atento de Cecéu. O forte antilusitanismo na Bahia daquela época não admitia que se colocasse os “brasileiros” subjugados perante os portugueses, João José foi uma influência nacionalista na vida militante e na obra de Castro Alves.

Aos 11 anos Castro Alves foi estudar no Ginásio Baiano, dirigido por Abílio César Borges, professor que aboliu em sua escola o uso da palmatória e de castigos, por outro lado fazia saraus para que os alunos exercitassem leituras num ambiente mais informal. Foi assim que o poeta declamou em público suas primeiras poesias – nesta época, ainda inocentes e infantis, mas com talento já reconhecido. Ali Castro Alves aprendeu francês e começou a ler e traduzir entre outros Victor Hugo, autor francês que tinha como protagonistas de suas obras miseráveis e trabalhadores.

À esta época Álvares de Azevedo era um dos poetas de maior destaque no país. Tinha um sentimento mórbido em sua poesia, desejava e falava da morte; descrevia situações extremas de festas e arruaças nos cemitérios. Castro Alves se contrapôs a essa visão cética do mundo, como em O Século, neste trecho:

E enquanto o ceticismo
Mergulha os olhos no abismo,
Que a seus pés raivando tem,
Rasga o moço os nevoeiros,
Pra dos morros altaneiros
Ver o sol que irrompe além.

Durante o Império (1822-89), o Brasil passou por imensas crises políticas e levantes populares. A monarquia massacrou passo a passo todas as manifestações de oposição e de cunho popular como a dos Cabanos nos Pará (1833), dos Farrapos no Rio Grande do Sul (1835-45), Sabinada na Bahia (1837), Balaiada no Maranhão (1839), a revolução liberal em Minas e em São Paulo (1842) e os Praieiros em Pernambuco (1848-49).

Da Revolução Praieira, Castro Alves admirava a luta pelo voto livre e universal, liberdade de pensamento e de imprensa, garantia de trabalho a todos, independência dos poderes constituídos com a exclusão do Poder Moderador, sistema federativo, reforma do poder Judiciário, garantia dos direitos individuais. Esse movimento foi declaradamente republicano e teve dois líderes que se destacaram na obra de Castro Alves, Pedro Ivo e Antonio Borges da Fonseca. O primeiro é título de um de seus poemas que propaga a idéia de república:

República!... Vôo ousado
Do homem feito condor!
Raio de aurora inda oculta

E chama o povo a lutar por ela:

Então repeti ao povo:
Desperta do sono teu!

(...)

Quando o povo acordado
Te erguer do tredo valado,
Virá livre, grande, ousado

E quando falou da Revolução Praieira, comparou-a a Revolução Francesa de 1789:

E eu disse: Silêncio, ventos!
Cala a boca, furacão!
No sonho daquele sono
Perpassa a Revolução!
Este olhar que não se move
Está fito em – Oitenta e Nove –

Borges da Fonseca, o outro revolucionário praieiro admirado pelo poeta, em 1864, em Recife, fez um comício republicano que foi dissolvido com muita violência à patas de cavalos – estava presente o estudante Castro Alves. Com a arma que o poeta tem, em meio à confusão, Castro Alves de improviso declamou o que conhecemos por O Povo ao Poder, um manifesto que unifica o continente americano como povos “irmãos” e representa a defesa do direito à reunião, à palavra, ao livre pensamento:

Quando nas praças se eleva
Do povo a sublime voz,
Um raio ilumina a treva,
O Cristo assombra o algoz

(...)

A praça, a praça é do povo!
Como o céu é do condor!
É antro onde a liberdade
Cria a águia ao seu calor!
Senhor, pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça!...
Só tem a rua de seu
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos...

(...)

A palavra, vós roubai-la
Dos lábios da multidão.
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão!

(Continua na quinta-feira, 15).

* Fernando Garcia é historiador e membro do Centro de Estudos e Memória da Juventude (CEMJ)

14.3.07

Festival de Inverno de Campos do Jordão abre inscrições para bolsistas

Estão abertas até 15 de abril as inscrições para bolsistas do 38º Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, o mais importante evento de música clássica da América Latina, que ocorrerá entre 7 e 29 de julho de 2007.

Ao todo, são oferecidas 148 bolsas de estudos para músicos, dos 12 aos 30 anos, nos cursos de instrumentos, prática de orquestra, música de câmara, regência e composição. Os cursos de canto lírico e técnica de gravação são para candidatos entre 20 e 35 anos.

Neste ano, assim como acontece desde 2004, os bolsistas formarão a Orquestra Acadêmica que tocará e gravará um CD sob a regência do Maestro Roberto Minczuk, diretor artístico do Festival.

Pela primeira vez, o Festival terá audições para jovens músicos nos Estados Unidos, em Caracas, na Venezuela, e em Brasília. As demais cidades serão São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Santiago do Chile e San José de Costa Rica. Também serão selecionados bolsistas por meio de gravações.

As inscrições podem ser feitas até 15 de abril no site www.festivalcamposdojor~dão.org.br, que também informa o local e as datas das audições.

Publicidade da Folha Online

8.3.07

Lênin no inferno

Depois de fazer a Revolução Russa, acabar com as diferenças de classes, varrer a burguesia e o Czar, e dedicar sua vida inteira ao comunismo, Lênin finalmente morre. Por ser ateu e ter perseguido os religiosos, termina sendo condenado ao inferno.

Ao chegar lá, descobre que a situação é pior que na terra: os condenados são submetidos a sofrimentos incríveis, não há alimento para todos, os demônios são desorganizados, Satanás comporta-se como um rei absoluto - sem qualquer respeito por seus empregados ou pelas almas penadas que agüentam o suplício eterno.

Lênin, indignado, rebela-se contra a situação: organiza passeatas, faz protestos, cria sindicatos com diabos descontentes, incentiva rebeliões. Em pouco tempo, o inferno está de cabeça pra baixo: ninguém respeita mais a autoridade de Satanás, os demônios pedem aumento de salário, as sessões de suplício ficam vazias, os encarregados de manter acesas as fornalhas fazem greve.

Satanás já não sabe o quer fazer: como seu reino pode continuar funcionando, se aquele rebelde está subvertendo todas as leis? Tenta um encontro com ele, mas Lênin, alegando não conversar com opressores, manda um recado através de um comitê popular, dizendo que não reconhece a autoridade do Chefe Supremo.

Desesperado, Satanás vai até o céu conversar com São Pedro.

- Vocês lembram aquele sujeito que fez a revolução russa? – diz Satanás.

- Lembramos muito bem – responde São Pedro. – Comunista. Odiava a religião.

- Ele é um bom homem – insiste Satanás. – Mesmo que tenha seus pecados, não merece o inferno; afinal, procurou lutar por um mundo mais justo! Na minha opinião, ele devia estar no céu.

São Pedro reflete algum tempo.

- Acho que você tem razão – diz finalmente. – Todos nós temos nossos pecados e eu mesmo cheguei a negar Cristo por três vezes. Mande ele para cá.

Louco de contentamento, Satanás volta para sua casa e envia Lênin direto para o céu. Em seguida, com mão de ferro e alguma violência, termina com os sindicatos de demônios, dissolve o comitê de almas descontentes, proíbe assembléias e manifestações de condenados.

O inferno volta a ser o famoso lugar dos tormentos que sempre assustou o homem. Louco de alegria, Satanás fica imaginando o que deve estar acontecendo no céu.

“Qualquer hora São Pedro vai estar batendo aqui, pedindo que Lênin retorne!“, ri consigo mesmo. “Aquele comunista deve ter transformado o paraíso em um lugar insuportável!”

O primeiro mês passa, um ano inteiro passa, e nenhuma notícia do céu. Morto de curiosidade, Satanás resolve ir até lá para ver o que está acontecendo.

Encontra São Pedro na porta do Paraíso.

- E aí, como vão as coisas? – pergunta.

- Muito bem – responde São Pedro.

- Mas... está tudo mesmo em ordem?

- Claro! Por que não haveria de estar?

“Este cara deve estar fingindo”, pensa Satanás. “Vai querer me empurrar Lênin de volta”

- Escuta, São Pedro, aquele comunista que eu mandei, tem se comportado bem?

- Muito bem!

- Nenhuma anarquia?

- Pelo contrário. Os anjos são mais livres que nunca, as almas fazem o que bem desejam, os santos podem entrar e sair sem hora marcada.

- E Deus, não reclama deste excesso de liberdade?

São Pedro olha, com uma certa piedade, o pobre diabo a sua frente.

- Deus, camarada? Deus não existe!

Extraído do site Diário Gauche

7.3.07

DRÁUZIO VARELA

"No mundo atual está se investindo cinco vezes mais em remédios para virilidade masculina e silicone para mulheres do que na cura do Mal de Alzheimer.
Daqui a alguns anos teremos velhas de seios grandes e velhos de pau duro, mas eles não se lembrarão para que servem."

Dráuzio Varella

4.3.07

Uberaba Cultural

Meus compadres e minhas comadres:

Essa matéria abaixo foi veiculada no Jornal de Uberaba do dia 02/03/2007 e a meu ver necessita uns adendos, pois, nossa cidade é uma verdadeira usina de arte, cultura e talentos. Vamos então à matéria do jornal e depois, ao final, a gente continua.

CULTURA E ARTE DESTACAM UBERABA
No Museu de História Natural "Wilson Estevanovic", o acervo é formado por rochas, minerais, pedras em geral, fósséis e réplicas. A sede está localizada na rua Uruguai, 557. No Museu de Arte Decorativa, conta com biblioteca, móveis e porcelana inglesa da década de 20, além de expor obras de Reis Júnior, pinturas em tela (retratos da família). O museu também promove exposições temporárias de arte e de música mostrando diversos aspectos da cultura brasileira.

O Museu do Zebu é o símbolo de sucesso de uma equação pioneira, formada por interesses comuns das Secretarias de Estado da Cultura e de Agricultura, da Associação Brasileira dos Criadores de Gado Zebu (ABCZ) e da Prefeitura da cidade. Localizado no Parque Fernando Costa, o acervo conta a saga do gado Zebu no Brasil e no mundo a partir do fim do século 19 e seus aspectos culturais. Única do gênero no mundo, seu acervo é constituído por peças, fotos, livros e documentos. Exposição permanente e mostras anuais temporárias.

O Mercado Municipal funciona em prédio erguido em 1922, na praça Manoel Terra. Sofreu reformas que modernizaram seu interior e todas as suas instalações, mas que conservaram seu estilo original. É uma excelente opção para compras de produtos típicos mineiros, frutas, verduras, laticínios, carnes e peixes, além de contar com outras lojas de produtos típicos. Nas manhãs de domingo a fundação cultural promove o Domingo Musical, com apresentações de diversificados artistas locais.

O Museu de Arte Sacra está instalado na Igreja Santa Rita, construída em 1854 e tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1939. O acervo é rico em peças barrocas dos dois últimos séculos e possui diversificado número de peças doadas pela Cúria Metropolitana, sobressaindo-se as seções de vestes sacras, estandartes de procissões, tais como paramentos, alfaias, imagens e mobiliário”.

A intenção do jornal, é claro, não foi fazer um balanço do que Uberaba comporta em se tratando de arte e cultura e nem tão pouco tenho conhecimento suficiente e pretensão em também fazê-lo. Mas gostaria de aproveitar a ocasião e informar, a quem interessar possa, que Uberaba está ganhando uma ong que tem entre seus objetivos a valorização da arte e da cultura locais e que leva em seu nome o do nosso imortal compositor Antenógenes Silva.

Gostaria ainda de destacar as verdadeiras obras arquitetônicas das igrejas de Uberaba e de alguns casarões que ainda desafiam o tempo e a pouca preocupação com a preservação do nosso patrimônio histórico, salvo algumas exceções.

É também necessário considerar a produção de nossos artistas nos mais variados segmentos, seja na literatura, na música, na dança, nas artes plásticas, no teatro, no artesanato, etc.

Quero lembrar também das manifestações culturais dos nossos irmãos afro-descendentes: as congadas, os moçambiques, etc, bem como nossas manifestações de cultura popular como as Folias de Reis e catiras.

A periferia também tem uma produção artística e cultural que destaca Uberaba na região, a exemplo do grupo de percussão “Os Tribais”, que nascido em projeto da Companhia Brasileira do Teatro de Percussão vem plantando suas sementes em vários municípios do Triângulo Mineiro.

Não posso esquecer de falar que temos dois teatros. Um que é municipal: o Teatro Vera Cruz, que foi adquirido pela Prefeitura em sua gestão atual e tem lugares para mais de mil pessoas. O outro, o nosso T.E.U., Teatro Experimental de Uberaba, um teatro aconchegante com quase duzentos lugares e que durante muito tempo foi o responsável por manter nossa produção teatral viva, em cartaz, inter-relacionando-se com a população e acolhendo as produções locais de forma democrática, o que aliás sempre foi seu perfil. Sempre esteve aberto e disponível ao público, aos artistas e às produções experimentais ou não. Não há como falar do T.E.U. sem desassociá-lo do nosso sempre lembrado e querido amigo Maurílio Cunha Campos de Moraes e Castro. Foi ele o responsável pelo único teatro de Uberaba durante décadas.

Mas ainda no assunto casa de espetáculos há que se destacar o teatro do SESI-MINAS,localizado na Praça Frei Eugênio, com sua programação cultural e artística de altíssimo nível, coordenada pelo Centro Cultural José Maria Barra.

Sem dúvida somando-se tudo, e ainda considerando o que não foi citado, o resultado dessa adição beneficia nossa cidade em vários aspéctos: o cultural, o social e o econômico.

As atividades artísticas e culturais em Uberaba têm provocado avanços e agora com a ACUAS – Associação Cultural Antenógenes Silva, certamente os avanços serão acentuados e provocarão uma inovação no meio cultural da cidade culminando em uma nova identidade para o movimento sócio/cultural e econômico de Uberaba por meio de uma atividade que buscará a inovação metodológica e artística bem como a excelência operacional.

Uberaba comporta alguns projetos mantidos pela Prefeitura Municipal de inclusão sócio/cultural através da arte e educação e a ACUAS tem grande interesse em fechar parcerias em projetos que visam a promoção da cidadania, da inclusão social e cultural uma vez que tem entre seus objetivos o de contribuir para o enriquecimento da cultura da cidade e região, por meio de um crescente interesse da comunidade por uma programação cuidadosamente oferecida que visa criar e conservar o contato entre a arte e a sociedade.

A ACUAS através de sua programação artística e cultural garantirá em Uberaba a presença de artistas, maestros, músicos de renome nacional e internacional, professores, críticos de arte, divulgação na mídia falada, escrita e televisiva, entre outros, e certamente muito contribuirá para o crescimento econômico da cidade e região. São atividades e programações que refletirão sua importância econômica sobretudo no turismo.

Então, meus compadres e comadres, vamos apostar nossas fichas em Uberaba pois certamente estamos assistindo neste momento os resultados das nossas reflexões e vivências, ou seja, a necessidade de profundas transformações na área cultural de nossa cidade e isso só será possível com parcerias entre todos os setores responsáveis pela cultura de Uberaba que incluem o poder público e privado, instituições, entidades e afins.

26.2.07

Do poeta popular Zé da Luz

Meus compadres e minhas comadres.

O poeta popular Zé da Luz teve seu trabalho conhecido pela linguagem matuta presente em seus cordéis.

Seu verdadeiro nome era Severino de Andrade Silva, nascido em Itabaiana, PB, em 29/03/1904 e falecido no Rio de Janeiro-RJ, em 12/02/1965.
Assunta só a preciosidade desses versos:

Ai! Se Sêsse!...

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós dois assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e cum eu tu insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge todas fugisse!!!

25.2.07

Um maestro em cena

“Kubrick e Chaplin não ganharam o Oscar. Eu estava em ótima companhia”, diz Ennio Morricone, enfim premiado

As vésperas de completar 80 anos, Ennio Morricone não tem rugas no rosto. Diz que é por sorrir pouco. Antes de dar início à entrevista, ele pede um café e reclama do resfriado provocado pelo frio de Nova York, de onde acabara de voltar. Avisa que sua fala é franca e que se deixa levar por turpilóquios: “Italo Calvino, em um ensaio, dizia que eles são ainda mais necessários quando as conversas são pacatas”.
Nascido em Roma, em 10 de novembro de 1928, Morricone será homenageado no mais badalado prêmio do cinema, no domingo 25. Depois de cinco indicações ao Oscar, sem jamais ganhar, Hollywood decidiu premiá-lo com o Oscar à carreira. O evento será festejado com o disco We All Love Ennio Morricone, que tem a participação de Bruce Springsteen, Eumir Deodato, Quincy Jones, Herbie Hancock, Dulce Pontes, Mettalica e Celine Dion. Na noite do Oscar, será ela – habitué do palco da Academia – a cantar em homenagem a Morricone a bela música de Era uma Vez na América (1984), que acaba de ganhar letra.
Autor das músicas de mais 400 filmes, Morricone é sinônimo de excelência em trilhas sonoras. Ele musicou dramas, tragédias, comédias e épicos como A Batalha de Argel (1966), de Gillo Pontecorvo, Sacco e Vanzetti (1971), de Giuliano Montaldo, A Gaiola das Loucas (1978), de Edouard Molinaro, Os Intocáveis (1987), de Brian De Palma, Cinema Paradiso (1988), de Giuseppe Tornatore, e Bugsy (1991), de Barry Levinson.
A despeito da diversidade temática, seu nome permaneceu indissoluvelmente ligado aos spaghetti westerns de Sergio Leone. Juntos, eles formaram uma das mais importantes duplas diretor-compositor da história do cinema. Basta lembrar de Por um Punhado de Dólares (1964), O Bom, o Mau e o Feio (1966) e Era uma Vez no Oeste (1968), entre tantos outros.
Os spaghetti western relançavam, nos anos 60, um gênero então considerado decadente. Com um estilo novo, que a crítica classificou como “minimalista”, os filmes dessa safra eram marcados por grandes espaços vazios, longos silêncios em que se ouviam a respiração do pistoleiro impassível, o tique-taque de um relógio e uma música extremamente original. A instrumentação nada ortodoxa, que usava gaitas, guitarras elétricas e assobios, foi muitas vezes apontada como o grande trunfo dos filmes de Leone.
De lá para cá, Morricone jamais parou. Em Nova York, há poucas semanas, regeu, na sede da ONU, As Vozes do Silêncio, uma cantata pela paz escrita logo após o 11 de Setembro “dedicada às vítimas silenciosas de tantas tragédias com menor visibilidade”. No Radio City Music Hall, superlotado, mostrou uma seleção da sua produção cinematográfica.
Apesar de tantos anos de trabalho com o cinema americano, Morricone não fala inglês. Convidado a viver em Hollywood, preferiu permanecer em Roma, num panorâmico apartamento de frente para o Capitólio, como se assim pudesse conservar o ponto de vista na vida e na arte. Ao longo da trajetória, recebeu três Golden Globe, dois Grammy, seis Bafta (o Oscar inglês), seis David de Donatello, o Leão de Ouro pela carreira em Veneza, e mais um punhado de prêmios. Faltava o Oscar.

CartaCapital: Desde a indicação por Malena (2000), o senhor disse que não esperava ganhar o Oscar. O Oscar pela carreira o surpreendeu?

Enio Morricone: Depois de A Missão (de Roland Joffé, 1986), Bugsy e Os Intocáveis, não esperava mais, desisti do Oscar. No ano de Malena, quando iam anunciar o prêmio, disse para minha mulher: ‘Espero que não seja eu’. Foi uma reação instintiva, mas depois refleti: considero mais importantes cinco indicações sem ganhar do que ganhar por acaso na onda de um filme que vence tudo e arrasta os prêmios, como O Último Imperador, que ganhou nove Oscar e levou o meu prêmio pelos Intocáveis (risos). A indicação é feita por 15 compositores membros da Academia, que exercem minha profissão. É um reconhecimento mais importante do que o de 5 mil sócios que, talvez, votem com indiferença. À época, li uma matéria sobre artistas incríveis que jamais ganharam: Chaplin, Kubrick, uma multidão cuja companhia me agradava. Isso não quer dizer que não me agrade receber o prêmio. O presidente da Academia me telefonou e disse buon giorno, quando aqui já era noite, e eu respondi buon giorno, ainda que estivesse indo dormir. Agradeci e fiquei feliz.

CC: Há quem diga que o imenso sucesso dos filmes de Sergio Leone seja devedor da música de Ennio Morricone.

EM: Acho que eu sou devedor de Leone, pois é o bom filme a puxar o sucesso. Foi ele quem deu tamanha importância à musica. O que é o som de um filme? No caso de western, o som do cavalo que galopa, do chicote que estala, de um soco, um tiro. Mas a música de onde vem? De uma fonte misteriosa pela qual o diretor e o compositor são responsáveis. A música no cinema é duplamente abstrata: é arte abstrata e é abstrata em relação ao filme. Ouvimos o resultado na cena sem ver a fonte misteriosa de onde isso emana. Costumo dizer que, para se tornar importante, a música precisa de EST: energia, spazio, tempo. Energia é a transmissão do som, fundamental, pois um som que não se ouve não existe. Espaço: uma música de 20 segundos não existe, deve ter ao menos três minutos. Tempo: a escolha do momento em que é colocada. Leone me deu todos esses elementos.

CC: A duração da música é tão importante?

EM: A duração é importante para que a música seja ouvida e sentida. Permite que o compositor se exprima e faça emergir o que está subentendido no filme. Nosso cérebro não pode aceitar mais de dois sinais ao mesmo tempo. No filme Um Homem, uma Mulher, o diretor Claude Lelouch pôs a música para tocar no rádio do carro, enquanto (Jean-Louis) Trintignant dirige pensativo. Se o som fosse perturbado por freadas, buzinas ou diálogos, a música não teria ficado.

CC: Um aspecto menos conhecido do grande público é que o senhor seja um compositor fértil de música para salas de concertos.

EM: Minha profissão é um pouco ambígua. A música que chamo de “absoluta” não depende de outras aplicações. No cinema, a música se põe a serviço do filme. Mas a música aplicada, ou de encomenda, não é necessariamente um gênero menor. Basta o compositor ser capaz de escrever uma música dotada de força, tensão expressiva e qualidades formais que podem lhe dar uma vida independente. À parte os quartetos de Beethoven e outras exceções, a música do passado, inclusive as missas de Bach, sempre foi encomendada. Haendel fez música para fogos de artifício. Haydn compôs a Sinfonia do Adeus quando queria sair de férias e o príncipe não permitia. Ele teve a grande idéia de fazer um solista após o outro se retirar do palco depois de tocar, até deixar o violino sozinho e ver se assim o príncipe entendia. A música sempre esteve a serviço da vida: festas, funerais, paradas militares.

CC: Quem são os grandes compositores de música para o cinema?

EM: É uma pergunta à qual, em geral, eu não respondo. Não por antipatia, mas porque raramente os compositores escrevem a música do filme. Escrevem brogliacci (esboços), como dizemos nós, e entregam para o arranjador orquestrar. É um péssimo hábito. Hoje, em vez de escrever a partitura, compositores e pseudocompositores se entregam a sintetizadores mirabolantes. Espera-se que a máquina emita sons fascinantes. É claro que a máquina funciona, mas ela também pode promover o diletantismo em detrimento do profissionalismo, que é o que leva adiante as grandes idéias. Com esses sintetizadores, basta o compositor apertar uns botões para ter o som de orquestra.

CC: Na sua filmografia, há pelo menos três e até 15 trilhas por ano, nos últimos 40 anos. Como lhe sobra tempo para escrever cantatas e sinfonias?

EM: Outrora, antes de compor para mim mesmo, precisava de tempo para me desintoxicar. Hoje, sinto a convergência entre as duas atividades: o cinema trouxe alguma coisa não só de fantasia, mas do ponto de vista técnico, que estabelece uma ponte com a música absoluta. Distingo uma música e outra, mas hoje já não sinto necessidade de nenhuma pausa. Posso acabar uma trilha hoje e começar um quarteto de arcos amanhã.

CC: Fazer música para o cinema é estar aberto às sugestões do diretor e ter, ao mesmo tempo, idéias musicais fortes. Há algum diretor com quem prefira trabalhar? Algum com quem gostaria de ter trabalhado?

EM: Trabalho bem com muitos diretores e não é justo dizer um nome só. Eu deveria ter feito Laranja Mecânica, porque Kubrick era apaixonado pela música de Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (de Elio Petri, 1969) e queria que eu trabalhasse em cima daquele tema. Eu não queria me repetir, mas ele estava obcecado. Acertamos o dinheiro e a gravação em Roma, sem a presença dele. Num belo dia, o Kubrick telefonou para o Leone e soube que eu estava com ele na mixagem. Nunca mais me chamou e fiquei sem saber ao certo porquê. Mas lamentei não ter trabalhado com aquele grande diretor.

CC: Acontece de ter de plagiar a si mesmo?

EM: Eu não faço isso, mas aconteceu com Queimada (1969), de Gillo Pontecorvo. Eu tinha feito a música para I Cannibali (1970), de Liliana Cavani, que estava montando o filme no mesmo lugar onde montava Pontecorvo. Gillo ouviu a música, um tema para coro e orquestra, e ficou doido. Conseguiu a fita na ausência da Liliana e montou a música na cena em que José Dolores (Marlon Brando) voltava a cavalo e a multidão a pé, e me mostrou na tentativa de me convencer. O resultado era espantoso. Gillo insistiu ao ponto em que não pude resistir e fui obrigado a me imitar. A música era diferente, mas o espírito era o mesmo e Liliana Cavani percebeu. O Pontecorvo ouviu poucas e boas. A mim, ela não chamou nunca mais. Com razão. Ou melhor, só recentemente, em Ripley’s Game (2002).

CC: Nino Rota era compositor de música de concerto e cinema. O que pensa da parceria dele com Fellini?

EM: Rota era um incrível músico, mas não pôde desenvolver sua imensa musicalidade com Fellini. Eu jamais teria escrito música para Fellini. Por quê? O próprio Fellini confessava que tinha cultura musical escassa e era fixado nos temas: Io cerco la pupina, io cerco non la trovo... (risos), e na Marcha dos Gladiadores que toca nos circos. Rota não ligava a mínima. Eram muito amigos. Ele se punha no piano e saía improvisando. A certa altura, Fellini dizia: “É essa!” E Rota: “Qual?” (risos) Fellini passou a gravar tudo para poder dizer “é essa”. Da parceria com Fellini, só é possível levar em consideração o Rota de Casanova. Deixado livre, ele fez um excelente trabalho. Há também La Strada, mas estavam presentes sempre o circo e os temas populares.

CC: Qual é o seu método de trabalho: analisa bem o roteiro antes ou prefere começar a escrever com o filme já montado?

EM: Às vezes, faço a música um mês antes de o filme sair, outras vezes trabalho com o diretor desde o início. Faço-o ouvir no piano algo com base no argumento. O importante é começar a escrever com as idéias claras, mas pode ser com o argumento, resumo do argumento, roteiro, ou vendo as imagens diárias ou as cenas montadas.

CC: Como é trabalhar em Hollywood?

EM: Os diretores de um certo nível trabalham todos mais ou menos da mesma maneira. Discute-se bastante até se chegar a um acordo entre as idéias do diretor e do compositor. Às vezes, os diretores têm idéias estranhas e, antes, eu perdia a paciência quando diziam algo aparentemente antimusical. Com o tempo, aprendi a tentar encontrar uma saída que contemple a idéia do diretor sem trair as minhas.

CC: Como o senhor começou em Hollywood?

EM: Tive duas fases. Inicialmente, ganhava de 300 a 500 mil liras na Itália e 35 mil dólares em Hollywood! Mas, certo dia em Los Angeles, a secretária do (produtor) Dino de Laurentis leu para mim a lista de quanto ganhavam os compositores e eu percebi que ganhava tanto quanto um medíocre compositor americano, meio diletante. Como não me considerava nem medíocre nem diletante, deixei de fazer música para eles até que passassem a me pagar decentemente.

CC: Quanto é decentemente?

EM: Não digo porque é um trabalho que amo tanto que faria de graça. Mas é justo que eu seja pago no meu nível. Eles pagam e eu recebo feliz.

CC: Como recomeçou nos Estados Unidos?

EM: O Fernando Ghia, excelente produtor italiano que morreu recentemente, me chamou a Londres para ver A Missão. O filme me comoveu às lagrimas e eu disse que não poderia fazer a música. Tinha medo de piorá-lo. Eles insistiram e eu recomecei imediatamente com outros honorários estipulados pelo Fernando Ghia.

CC: Que tipo de pesquisa o senhor fez para esse trabalho?

EM: Os produtores haviam encomendado um trabalho muito sério sobre a música que os jesuítas levaram para a América Latina. Era o princípio da música instrumental do Renascimento, baseada nas regras para a música sacra decididas no Concilio de Trento (1542-1563). Na Idade Média, fazia-se música sacra com palavras profanas e canções profanas com palavras sacras. No filme, havia um padre que tocava oboé, os meninos que estudavam violino. Houve uma música que chamei de Ave Maria em Guarani. Para a gravação, convidamos gente de várias embaixadas asiáticas e misturamos os diletantes, que desafinavam, com os profissionais. Misturamos uma espécie de música étnica com palavras latinas, que expressavam a civilização musical levada para a América do Sul. O resultado me deu satisfação técnica e moral.

CC: Há alguma de suas músicas à qual o senhor é particularmente ligado?

EM: Nunca ouço minhas músicas. Quando ouço e às vezes gosto, depois sonho, me perturba. Gosto mais da música que acabo de fazer, La Sconosciuta, para Giuseppe Tornatore, e a próxima que farei.

CC: Qual será seu próximo projeto?

EM: O Último dos Coleoneses, um filme de Simona Izzo, para a televisão, com Nicola Zingaretti e Ricky Tognazzi, e um filme do Giuliano Montaldo sobre a vida do Dostoievski.

por Elisa Byington, de Roma

Carta Capital

24.2.07

Site transmite peça ''Os Sertões'' ao vivo neste sábado

As apresentações do espetáculo Os Sertões, do Teatro Oficina, serão transmitidas ao vivo pela internet, a partir deste sábado (24/02), pelo site oficial da companhia teatral.

Até o dia 25 de março, a página da trupe na Web disponibiliza, em todos os fins de semana, imagens em vídeo das cinco peças que constituem a montagem inspirada no livro homônimo de Euclides da Cunha.

As imagens e sons serão captados durante sessões normais dos espetáculos A Terra, O Homem (1 e 2) e A Luta (1 e 2), por intermédio de dez câmeras, e transmitidas apenas ao vivo pelo site. Não estão previstas exibições posteriores das peças.

A proposta do acesso democrático se estende também aos interessados a comparecer ao teatro. Durante a temporada de filmagens, os ingressos custarão R$ 1. O público (ao vivo e online) acompanhará a gravação do DVD do espetáculo.

26 horas
As imagens, segundo José Celso Martinez, vão compor ''o longa mais longo de todos os tempos''. Ao final da produção, será lançada uma caixa de DVDs com todo material produzido, prevista para conter ao menos 26 horas de espetáculos corridos, além de extras com os bastidores do projeto.

Cada peça terá um diretor geral: Tommy Pietra (A Terra), Fernando Coimbra (O Homem 1), Marcelo Drummond (O Homem 2), Elaine César (A Luta 1) e Erik Rocha (A Luta 2). O resultado deve chegar ao mercado em dezembro.

Confira a agenda das transmissões online de Os Sertões

A Terra
24/2, às 19 horas; e 25/2, às 18 horas. Duração: 3h30

O Homem 1
3 e 4/3 de março, às 19 horas. Duração: 4h30

O Homem 2
10 e 11/3 de março, às 19 horas. Duração: 5h30

A Luta 1
17 e 18/3, às 19 horas. Duração: 6h15

A Luta 2
24 e 25/3, às 19 horas. Duração: 6 horas

UOL

17.2.07

Brasil-folia

Desde ontem o Brasil está na folia. Folia significa pândega, bagunça, loucura. É isso que caracteriza o nonsense do verdadeiro carnaval, a ausência de propósitos. Não é a estrutura “las veguiana” das escolas de sambas, com uma cultura do faz-de-conta. Faz de conta que a ilusão é realidade, faz de conta que o enredo é uma mensagem de cunho social e faz de conta que todos são sambistas. Como, se a essência financeira das escolas de samba é fruto, quase sempre, da contravenção?

A folia, livre, descoordenada e democratizada é a resposta do povo à sisudez da vida, à violência flagelando famílias e transformando a todos em reféns medrosos diante do inesperado. Assim, em meio a goles de cachaça e de cerveja vamos todos entorpecer a nossa tristeza endógena e transmudá-la em alegria coletiva de brasileiros que não votaram em Sarney, votaram no Collor, não votaram em Itamar, mas votaram em FHC e bisaram Lula.

Na verdade, pouco se sabe sobre o povo brasileiro, tão vário quanto mal definido, mesmo que Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr. tenham tentado explica-lo, sem grande êxito. Em pleno 2007, pouco se conhece de sentimentos, caráter, sonhos e dores díspares dos que habitam a Amazônia, povoam os pampas gaúchos, sertanejam pelo centro-oeste ou nas securas do nordeste. Somos tantos. O que temos em comum é riqueza mal distribuída e pobreza generalizada. O que nos une é a ignorância da grande maioria, esperando a redenção que sempre depende do céu ou dos outros, especialmente do governo.

Mas, falava do Brasil-Folia e não estava pensando nos espetáculos para turistas e televisão no Rio, São Paulo e Bahia. Folia não tem enredo, abre-alas e mestre-sala. Nada a ver com alegorias, marcação, harmonia e iluminação. Folia é terapia coletiva, é baticum no boteco da esquina, nos blocos e cordões de sujos, tudo aleatório e anárquico. O resto é fantasia comprada por turistas desengonçados, sem cadência ou tendência para o passo inconseqüente do samba, posando para câmeras, na esperança do registro que lhes dê glória, efêmera que seja.

João Soares Neto
Extraído do site: www.vermelho.org.br

16.2.07

Arqueologia do amor

O sítio arqueológico de ocupações pretéritas aproxima-se das angústias e anseios contemporâneos de ausências presentes.

Não é mais uma questão de pele ou de afinidades, os ossos entrelaçados são testemunhas perenes dos nobres sentimentos do gênero humano. No período neolítico, quando as palavras ainda se mostravam escassas e os gestos poliam as realidades, dois jovens foram enterrados juntos num abraço que nenhuma força da natureza poderia separar.

Por coincidência, ou providencial acaso, o local dista apenas quarenta quilômetros de Verona, cenário do amor de Romeu e Julieta, imortalizado por William Shakespeare. O sítio arqueológico de ocupações pretéritas aproxima-se das angústias e anseios contemporâneos de ausências presentes. A fantasia dos jovens amantes permeia nossos anseios e dá corpo aos sonhos da mocidade cheios de arrebatamento e paixão. Palpitações, desejos, descobertas... A vida no limiar da morte, ser o outro mesmo que num plano improvável...

Para os mortos, já não existem verbos a serem conjugados. Contudo, a ternura das circunstâncias e a intensidade da entrega são vestígios arqueológicos que podem ser encontrados em todos os que incorporaram as próprias narrativas e que, em muitas ocasiões, não valorizam os achados e os soterram em baldios esquecimentos.

Dois corpos enredados numa só alma. Dois jovens amantes, irmãos, amigos... As análises dos laboratórios poderão recompor muito da estrutura dos esqueletos, ligados sob as peles do tempo, e das ferramentas de pedra, pontas de flecha e a faca, artefatos característicos do período neolítico, mas a emoção que originou o abraço nunca poderá reconstituída e deverá permanecer para sempre como uma ação a ser abarcada pela humanidade.

Helena Sut
Extraído do site www.cartamaior.com.br

14.2.07


A cultura e o planejamento da cidade

No ambiente urbano, com qualidade de vida discutível e um estado de regressão cultural, o espetáculo é sempre o alvo das denominadas políticas culturais que desconhecem o processo do fazer cultural e as questões mais evidentes, como a diversidade, a conservação e a transformação das linguagens artísticas e suas leituras.

A produção cultural e o planejamento urbano que estamos a presenciar e consumir chamam a atenção para uma época de políticos, burocratas e empresários à frente dos destinos da cidade. Se o planejamento foi levado à condição de aspirina para resolver um mal incurável: “a desordem urbana”, a cultura foi transformada em divertimento descartável para uma população urbana que corre desesperada atrás de um ócio.

A revolução industrial criou uma obsessão de progresso, mas em relação ao mundo do pensamento, o homem pouco avançou, ao contrário, reduziu sua capacidade de reflexão, criando um tipo de sociedade que privilegia o consumo e despreza as idéias. Paradoxalmente, o aumento da informação resultou na diminuição do repertório.

A cidade moderna, administrada pela economia e por legislações que nos são impostas, é um supermercado com um estoque de produtos e tecnologias que precisa ser comercializado para gerar emprego, renda e desenvolvimento econômico. Não é mais o espaço da solidariedade, mas um campo de concentração de empregados e desempregados, de guetos, de proprietários isolados, com mínimas possibilidades de trocas de experiências entre indivíduos de grupos diferentes. É a cultura dos condomínios fechados, das praças privatizadas, do paraíso dos shoppings. Até a arte deixou de ser um “exercício de liberdade” como imaginava o crítico Mário Pedrosa e passou a ser julgada como um produto ou espetáculo do mercado cultural.

A prática de um conhecimento quando subordinada aos interesses que negam o princípio desse conhecimento e o bem comum, é também a negação da cidadania. A arquitetura, a arte, o desenho da cidade e dos objetos deixaram de ser dispositivos de acomodação e satisfação do homem com o meio ambiente onde vive; e passaram a ser o exercício burocrático de desenhar ou estetizar o território, de adaptar a cidade para a razão perversa de uma sociedade que nega os valores e a ética em nome do crescimento econômico e da concentração de renda que fazem o cotidiano da vida moderna.

Na produção da cidade, a atividade intelectual foi excluída e substituída por uma relação de trocas e favores. Nesse ambiente urbano, com qualidade de vida discutível e um estado de regressão cultural, a festa, ou melhor, o espetáculo é sempre o alvo das denominadas políticas culturais que desconhecem o processo do fazer cultural e as questões mais evidentes, como a diversidade, a conservação e a transformação das linguagens artísticas e suas leituras.

O que os administradores da cultura esquecem, algumas vezes, é que as artes têm suas próprias materialidades, não são campos de pouso para outras políticas, nem mesmo as ditas culturais que ignoram problemas acerca da tradição, do moderno e do contemporâneo. A origem, a história dessas linguagens e a lógica de suas revoluções. Enquanto artistas, arquitetos, intelectuais, produtores de bens artísticos, mesmo excluídos do processo de decisão, temos o compromisso de resgatar a reflexão sobre as práticas culturais e a imagem da cidade. Temos uma responsabilidade neste momento que é a de tomar uma decisão enquanto é possível para o futuro de nossas cidades antes que a economia o determine para nós. Uma cidade sem poesia, sem memória e sem história é um abismo de simulacros e referências artificiais.

Uma cidade tem sentido quando tem uma história, uma identidade. Não podemos imaginar o futuro sem descortinar a memória e contemplar o patrimônio nela guardado. A cultura na qual estamos mergulhados é responsável por essa cidade que estamos edificando, da especulação imobiliária, da disputa do metro quadrado, como se o espaço urbano fosse apenas uma mercadoria e não o lugar da convivência e da liberdade. Isto pode significar o fim da concepção de cidade que determinou sua origem.

A universidade, uma instituição por excelência da cidade, vem se afastando de seus princípios fundamentais para atender as demandas do mercado de trabalho em detrimento da especulação do pensamento. Sua função não era formar mão-de-obra especializada, mas estimular a reflexão, muitas vezes sem mercado de trabalho, sem a qual a vida cultural de uma cidade entra em declínio.

A cidade surgiu como o lugar do encontro com o outro, do diálogo. Essa cultura das comunidades restritas, do gozo sem desejo, do jogo de interesses privados, onde só os semelhantes interagem, fez com que ninguém se sentisse comprometido com a preservação do espaço físico, do meio ambiente, dos valores, da História, dos bens coletivos. A competição em lugar da cooperação reduziu o sujeito urbano à força de trabalho e consumidor de produtos, e inventou uma cidade que não fala mais de nossos afetos e paixões. Mas se o sonho ainda não acabou, temos imaginação e raciocínio, vamos alimentar a vontade de reinventar a cidade e suas instituições para recuperar o humano, a comunicação, a solidariedade e o encontro das diferenças.

Almandrade (Antônio Luiz M. Andrade): artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano e poeta.

12.2.07

O mundo ferve – e o marxismo com isso?

O relatório sobre aquecimento global divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) esquentou o debate sobre o que fazer para evitar uma catástrofe previsível. Mas a discussão fica manca se não se buscam responsáveis para além de uma "atividade humana". Afinal, humano é George Bush que, representando os interesses do grande capital estadunidense, recusa-se a assinar o Protocolo de Kioto, que coíbe a emissão de gases poluentes; humana é a trabalhadora rural que cuida de sua plantação de subsistência; humanas são as cerca de 50 milhões de crianças que vivem em estado de pobreza, somente nos 24 países mais ricos do mundo (levantamento do Unicef – Fundo das Nações Unidas para a Infância).

Ao fundamentarem o materialismo histórico e dialético, Karl Marx e Friedrich Engels demonstraram que não existe, a não ser na cabeça de ideólogos idealistas, o homem abstrato, destituído de história e de existência concreta na sociedade e na natureza. O relatório da ONU indica que a devastação da natureza em dimensão que coloca em risco a vida humana no planeta ocorreu a partir da revolução industrial. Revolução que resultou no domínio de alcance planetário da classe burguesa e das relações capitalistas de produção. E Marx foi o mais arguto analista da formação do capitalismo, indicando o que trouxe de benefícios e que mazelas impôs à sociedade.

Mas os pensadores alemães não centraram suas análises nas questões ecológicas e, vivendo no século XIX, não testemunharam a escalada de destruição do meio ambiente realizado pari passu com o desenvolvimento da indústria e a expansão da exploração rural.
Engels se referiu ao homem como "a natureza quando toma consciência de si mesma" (Anti-Dhüring). Marx, nos Manuscritos de 1844, considerou que a natureza "é o corpo não-orgânico do homem". Os dois destacam que a atividade humana leva ao domínio das leis da natureza, para melhor atuar e colocá-la ao serviço da humanidade.

Engels foi virulento em suas críticas ao capitalismo ao analisar as condições sub-humanas nos bairros proletários de Londres na primeira metade dos anos 1800 – não responsabiliza "os homens", mas a burguesia pela degradação do ar e dos rios. Num de seus últimos escritos, "O papel do trabalho da transformação do macaco em homem", sentencia: "Os fatos nos lembram a todo instante que nós não reinamos sobre a natureza do mesmo modo que um colonizador reina sobre um povo estrangeiro, como alguém que está fora da natureza, mas que nós lhe pertencemos com nossa carne, nosso sangue, nosso cérebro, que nós estamos em seu seio e que toda a nossa dominação sobre ela reside na vantagem que levamos sobre o conjunto das outras criaturas por conhecer suas leis e por podermos nos servir dela judiciosamente". É o uso judicioso que o capitalismo impede, com sua busca incessante da maior taxa de lucro possível, custe o que custar, devaste o que devastar. E, como anota nesse mesmo texto, para cada vitória humana sobre a natureza, "a natureza se vinga de nós."

Nos "Grundisse", Marx registra que a produção fundada sobre o capital cria "um sistema de exploração geral das propriedades da natureza e do homem", começando a "apropriação universal da natureza". Em O Capital, o autor constata que "a indústria e o comércio proporcionam à agricultura os meios para o esgotamento da terra". Diz que o desenvolvimento capitalista perturba "o metabolismo entre homem e terra", considera "cada progresso da agricultura" um "progresso da arte de saquear o solo" e acusa o capitalismo de "minar simultaneamente as fontes de toda a riqueza: a terra e o trabalhador". Ainda nO Capital, Marx escreve que "o desenvolvimento da civilização e da indústria em geral (...) se mostra sempre tão ativo na devastação das florestas que tudo aquilo que pôde ser empreendido para a conservação e produção é comparativamente completamente insignificante".

Mais de 100 anos após a publicação dessa obra, não é apenas a natureza que vem sendo inescrupulosamente degradada, mas, ao mesmo tempo, o número de miseráveis está aumentando: Aproximadamente a metade da população do mundo vive baixo da linha da pobreza, segundo um informe da Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgado em 2003. Quase 3 bilhões de pessoas vivem com menos de US$ 2 por dia. Dos 3 bilhões, cerca de 1 bilhão – o equivalente a um quarto da população dos países em desenvolvimento – vive com menos de um dólar diário. A OIT também informou que o desemprego oficial está em um dos níveis mais altos da história, com 180 milhões de desempregados, enquanto mais de 1 bilhão de pessoas estão subempregadas ou parcialmente empregadas.

Mas os fundadores do socialismo científico não ficavam somente lamentando a destruição da natureza. Convicto de que não basta interpretar o mundo, é preciso transformá-lo, Marx aponta o comunismo como a solução para "o antagonismo entre o homem e a natureza". Com a abolição da propriedade privada, será possível "a realização da unidade essencial do homem com a natureza, a verdadeira ressurreição da natureza, o naturalismo completo do homem e o humanismo completo da natureza". No volume III dO Capital, menciona a necessidade de "tratamento conscientemente racional da terra como eterna propriedade comunitária, e como condição inalienável de existência e de reprodução da cadeia das gerações humanas sucessivas". Considera as sociedades tomadas em conjunto "apenas ocupantes, usufrutuárias," da terra, que devem, "como bons paters famílias, deixá-la em melhor estado para as futuras gerações". Em outro trecho aponta que "a única liberdade possível é a regulação racional, pelo ser humano socializado, pelos produtores associados, de seu metabolismo com a natureza, que eles controlam juntos ao invés de serem dominados por ele como por uma potência cega".
O ser humano sobreviveu e assegurou seu desenvolvimento colocando a natureza a seu serviço. No século XIX não era possível avaliar plenamente as conseqüências da devastação da natureza mas vale, no caso a observação feita por Engels, em 1892, em relação ao seu livro sobre a classe trabalhadora inglesa, publicado em 1834: "O admirável não é que muitas destas profecias tenham falhado, mas que tantas tenham se mostrado corretas"...

Carlos Pompe – Jornalista e curioso do mundo
Matéria extraída do site www.vermelho.org.br


10.2.07

O TEU é nosso!

Período de utilização do palco do Teatro Experimental de Uberaba (TEU) para as sessões de plenário dos vereadores vai ser mais curto do que o previsto. O presidente da Câmara, Lourival dos Santos (PSB), que fez sua estréia anteontem no comando das reuniões, anunciou que o espaço será liberado dia 15, quinta-feira, já que as obras de adequação do plenário, na rua Manoel Borges, foram agilizadas e estão entrando na fase de acabamento. O motivo da pressa, que já era comentado nos bastidores, ganhou contornos "oficiais" ontem, quando o presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Uberaba, Aristides Bonfim, pediu para falar no plenário, em nome dos artistas da cidade."Não fomos consultados sobre o uso do TEU pela Câmara de Vereadores, e nos sentimos desrespeitados por isso", desabafou. O artista garantiu que a categoria não é contra o empréstimo do espaço, mas sim, contra a forma como ele aconteceu. "Para nós, artistas de Uberaba, o TEU é tão sagrado quanto o plenário da Câmara Municipal é sagrado para os senhores vereadores" - comparou. De acordo com Aristides Bonfim, a cidade tem cerca de 300 artistas, sendo que a maioria sobrevive da sua arte, e o TEU, segundo ele, é a casa que permite esta sobrevivência. A ocupação do teatro pela Câmara de Vereadores, ocorrida sem qualquer aviso prévio, de acordo com ele, tem sido um transtorno para os artistas da cidade, que ficaram sem o espaço.O palco do TEU, onde acontecem as apresentações, foi ocupado pelo mobiliário (mesas e cadeiras) do plenário da Câmara, impedindo as manifestações culturais.Lourival dos Santos explicou que o local foi oferecido pelo ex-presidente da Fundação Cultural, Além-Mar Paranhos (exonerado do cargo na semana passada), e que os vereadores não imaginavam que a ocupação temporária fosse provocar transtornos. O presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais, a exemplo do presidente da Câmara, evitou fazer críticas diretas ao ex-dirigente da Fundação Cultural (substituído pelo jornalista Luiz Gonzaga), mas não poupou cobranças para o setor. Tapa de pelica - As queixas sobre o uso do TEU abriram, por outro lado, espaço para Lourival dos Santos fazer seu "comercial". O vereador reafirmou que a gestão 2007/2008 da mesa diretora pretende priorizar a participação popular no programa TV Câmara, exibido pela TV Universitária/Cultura, canal 5, de segunda-feira a sexta-feira, das 9h30 às 11h30 e das 21h às 22h30. Lourival assegurou que no topo das prioridades está justamente a abertura de espaços para os artistas de Uberaba.

Giselda Campos
Jornal de Uberaba
PS: O título da materia colocado no blog não corresponde ao editado pelo jornal de onde foi extraída.

2.2.07

Associação Cultural Antenógenes Silva

Meus compadres e minhas comadres:

Foi realizada no dia 26 p.p., na Praça Santa Terezinha, nº 420, (Clínica Corpo e Mente)Assembléia Geral convocada para a fundação, eleição e posse da primeira diretoria da ACUAS(pronuncia-se Ácuas)Associação Cultural Antenógenes Silva.

Uberaba ganha então uma ong para atuar na área cultural desenvolvendo espetáculos públicos e projetos culturais além de manter e desenvolver os trabalhos artísticos da Orquestra de Uberaba e outros grupos que venham a ser constituídos.

O nome da Associação foi escolhido como forma de homenagear esse grande músico que foi Antenógenes Silva, um dos maiores músicos nascidos em nossa terra, compositor de inúmeras obras que integram o nosso cancioneiro popular e o elevam ao patamar dos grandes melodistas da música popular brasileira.

A nova entidade cultural cumpre agora a etapa de registros e a partir do mês de março estará em plena atividade, promovendo e servindo como fórum de debates em assuntos relativos à cultura, meio ambiente, ciência, arte/educação, entre outros.

A primeira Diretoria da ACUAS ficou assim constituída:

Presidente: Jeziel Pousa Corrêa de Paiva
Vice-Presidente: Antonio Silveira De Vito
1º Secretário: Maristela Jakimiu De Vito
2º Secretário: Carlos Marques Perez
1º Tesoureiro: Léo de Lima
2º Tesoureiro: Sandra Pinheiro

Vida longa à Associação Cultural Antenógenes Silva

Erlon Paschoal: Brecht, Artaud e a busca de um novo teatro

No ano anterior comemorou-se em todo o mundo os 110 anos de nascimento de Antonin Artaud e os 50 anos da morte de Bertolt Brecht. Dois expoentes da cultura ocidental e do teatro universal, que estão sendo lembrados por todos que cultivam a arte e prezam a evolução do espírito humano.

Estes dois artistas vivenciaram a mesma época em países limítrofes e - em vários momentos da história - antagônicos. Ambos criticaram mordazmente o teatro oficial existente em seus respectivos ambientes na primeira metade do século. Foram contemporâneos, embora sem nenhum contato. Artaud morreu em 1947, Brecht em 1956. Ambos viveram duas grandes guerras e presenciaram a degeneração do convívio humano em proporções até então inimagináveis, e reagiram a elas de maneira distinta, como são distintas também suas respectivas concepções de vida e de teatro.

Um vê nos grande conflitos humanos a atuação de forças cósmicas; o outro, de forças sociais; e expressam tais perspectivas em suas criações teatrais. Ambos, enfim, viveram intensamente a atividade teatral, embora Artaud tenha dirigido algumas poucas peças em toda sua vida, ao contrário de Brecht, que dedicou quase todo o seu tempo à prática do teatro, fosse encenando ou criando, fosse escrevendo ou desenvolvendo teorias. Como se vê, Brecht exercitou no palco as suas idéias, compartilhando-as com seus contemporâneos, sempre em busca da transformação do homem e de suas relações sociais. Artaud, por outro lado, praticou o teatro quase que unicamente em si mesmo, expressando-o em alguns poucos textos esparsos de maneira arrojada, decidida, escatológica e universal. Ambos lutaram contra a hegemonia ditatorial da palavra e postularam uma linguagem abertamente teatral, uma “fala” característica do palco.

Como toda linguagem está condicionada por aquilo que anseia exprimir, aquela desenvolvida por Brecht busca a precisão, a concisão e a eficácia comunicativa, explora o humor e enfatiza a beleza. Artaud exalta a entrega às forças naturais primitivas, o rompimento das amarras sociais e almeja atingir as dimensões mais profundas do espírito, provocando o encanto e o fascínio. Enquanto Brecht procura explicar e revelar a atividade do ator com conceitos objetivos, quase científicos, Artaud faz uso de termos abstratos e ambíguos, tais como Guerreiro, Duplo, Peste, Crueldade, colocando no palco não mais temas psicológicos ou sociais, mas míticos e cósmicos.

Sem dúvida, não vamos resumir a intensidade e a influência do fazer teatral de cada um deles, em meia dúzia de frases, pois sabemos que todo grande autor possui mananciais ainda inexplorados. Brecht era um homem prático, que pregava a lucidez e a transformação social, legando à humanidade alguns dos textos mais significativos da dramaturgia universal, ao lado de poemas, teorias, críticas, roteiros, análises, romances, contos e artigos sobre os mais variados temas. Artaud foi um vate, um visionário, que dialogava com as forças inconscientes e pretendia resgatar o poder primitivo e transformador do teatro. Passou parte de sua vida em hospícios (locais talvez mais sadios que a louca realidade, sobretudo de 1937 a 1946); conviveu alguns meses com os índios Tarahumaras no México, onde teve contato com os ritos do peyote e pôde vivenciar o esplendor da vida mergulhada no Absoluto e integrada às forças da Natureza.

Ambos, contudo, acreditaram que a função do teatro era “fazer pensar”, levar o público a vivenciar e a considerar novas possibilidades de existência, através de uma linguagem elaborada, viva e inovadora. Ao mesmo tempo que rejeitavam as formas teatrais então convencionais, eles almejavam revolucionar o convívio social, retomando tradições ocidentais instigadoras e sendo fortemente influenciados pelo teatro oriental. Artaud afirmou: “ligar o teatro à possibilidade de expressão pelas formas, e de tudo que houver em matéria de gestos, ruídos, cores, plasticidade etc., é devolvê-lo à sua primitiva destinação, é recolocá-lo em seu aspecto religioso e metafísico, é reconciliá-lo com o Universo.”

A contribuição mais notória de Artaud para a evolução da arte teatral é, de qualquer modo, a reivindicação e o vislumbre de uma linguagem puramente teatral, não mais dominada pela palavra, mas pelo gesto, pela plasticidade e pelos signos de intenso apelo inconsciente. Aspectos exclusivamente psicológicos perdem a importância e “não se trata de saber se a linguagem física do teatro é capaz de chegar às mesmas resoluções psicológicas que a linguagem das palavras, se consegue expressar sentimentos e paixões tão bem quanto as palavras, mas de saber se não existem no domínio do pensamento e da inteligência atitudes que as palavras são incapazes de apreender e que os gestos e tudo aquilo que participa da linguagem no espaço conseguem captar com mais precisão do que elas”.

Suas descrições do teatro ideal são virulentas, poéticas e pulsivamente emotivas, por vezes bombásticas e concludentes. A sua premência de se expressar e a sua rejeição do abuso predominante e excessivo das palavras, leva-o à impossibilidade de compartilhar suas idéias com seus contemporâneos, e ao vazio: “Todo verdadeiro sentimento é na verdade intraduzível. Expressá-lo é traí-lo. Mas traduzi-lo é dissimulá-lo. A expressão verdadeira oculta aquilo que manifesta”. Desse modo, em sua não definição, a linguagem concreta, espacial e física do teatro, “faz surgir a idéia de uma certa poesia no espaço que se confunde com a bruxaria”. E conclui: “o autor que usa exclusivamente palavras escritas não tem mais lugar e deve abrir espaço aos especialistas dessa bruxaria objetiva e animada”. Além disso, “é preciso acabar com essa idéia de obras-primas reservadas a uma auto-intitulada elite, e que a massa não entende”.

Neste sentido, apesar das diferenças, tanto Brecht quanto Artaud, atacam a falsa noção de sublime e da idolatria das “obras-primas imobilizadas”, características do teatro e do conformismo pequeno-burguês.

Em sua busca de um teatro que despertasse os nervos e o coração dos homens, Artaud chega à formulação de uma concepção teatral que insufle miticamente as massas, levando-as a acreditar nos sonhos apresentados no palco - mas como sonhos de fato e não como “decalque da realidade” - estimulando no público a “liberdade mágica do sonho” marcada pelo terror e pela crueldade.

Artaud é categórico: “farei aquilo com que sonhei, ou não farei nada”.

Recorrendo às imagens presentes nas pinturas de Grünewald, Brueguel, Goya e Bosch, Artaud vislumbra um espetáculo ideal, composto por verdadeiras tentações, capaz de extrair as forças primitivas presentes nos mitos e no inconsciente das massas, denominando-o Teatro da Crueldade. Nele, tal como nos ritos e na magia, o público deve ser levado ao delírio e ao êxtase, vivenciando a totalidade física e espiritual do Ser.

A crueldade intrínseca ao verdadeiro teatro é assim justificada por ele: “Sem um elemento de crueldade na base de todo espetáculo, o teatro não é possível. No estado de degenerescência em que nos encontramos, é através da pele que faremos a metafísica penetrar nos espíritos”. Ele pressupõe, portanto, o rigor implacável, a determinação absoluta e um apetite cego pela vida. Embora o Teatro da Crueldade não passe de um manifesto - fruto de uma época, aliás, repleta de manifestos (surrealista, dadaísta, modernista, comunista, antropofágico etc.) - a sua impetuosidade e o seu tom arrebatador influenciaram figuras expressivas do teatro mundial neste século: de Jean-Louis Barrault a Julian Beck, de Grotowski a José Celso Martinez Correa, todos empenhados na criação de um teatro vivo, pobre, despojado, essencial e ritualístico.

Naturalmente, um manifesto rico em imagens ardorosas e metáforas exaltadas prestou-se também a muitos equívocos, à medida em que tais confusões, analogias e abstrações simbólicas transcendentais deram margem a interpretações contraditórias e, por vezes, excludentes. De qualquer modo, os seus ingredientes básicos são a ruptura, a criação de uma linguagem gestual comunicativa e a primazia da encenação em detrimento do uso estático da palavra.

De resto, algo evidentemente comum a Brecht e a Artaud é a visão de que o teatro deveria abandonar a sua função meramente decorativa e culinária para tornar-se essencial, popular, humano e transformador. Ambos sonharam conscientemente o mundo através da arte teatral; um através da atividade teórico-prática incessante; o outro com visões alucinatórias profundas e arquetípicas.

Não sei o que Artaud pensaria ao ver em nossos dias o fascínio exercido pela televisão e pela imagem em geral nas massas; ao ver o desdobramento da estética nazista na publicidade e na produção dos grandes eventos modernos; a invenção intermitente e acelerada de ídolos, imposta pela indústria do entretenimento, e de imagens que se caracterizam psicologicamente como os mitos do homem moderno; ao ver o mundo de aparências que nos rodeia e nos seduz, que esvazia o sentido de todos os gestos e banaliza as grandes emoções humanas... Grotowski, por exemplo, preferiu isolar-se numa cidade do interior da Itália, a abandonar a produção de espetáculos utilizando o teatro a partir de então apenas enquanto meio para a educação do homem. Talvez porque no decorrer da História, as pretensões mirabolantes, mágicas e hipnóticas de Artaud tenham se esgotado em si mesmas, pois a sensibilidade do espectador moderno já está devidamente calejada pela desordem e pelas aberrações desumanas reinantes em nossa sociedade e pela pirotecnia sensacionalista dos meios de comunicação.

Para Brecht, por sua vez, “a palavra do poeta não tem de ser mais sagrada do que verdadeira, pois o teatro não está a serviço do poeta, mas da sociedade”.

Artaud é quase desconhecido no Brasil, enquanto Brecht foi um dos autores mais lidos, montados e discutidos em toda a América Latina, sobretudo nas décadas de sessenta, setenta e oitenta. A Editora Paz e Terra publicou recentemente em português todos os seus textos teatrais em doze volumes. A principal obra de Artaud “O Teatro e Seu Duplo” também pode ser encontrada em qualquer livraria. Que esta data sirva então como pretexto para retomarmos ou conhecermos as idéias sempre instigantes e vivas destes dois símbolos do teatro moderno.
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Erlon Paschoal, Diretor de teatro, dramaturgo, tradutor e gestor cultural, nascido em São Paulo. Estudou Letras Português-Alemão na USP e já traduziu para o português diversos autores. Atualmente trabalha no Minc.

Extraído do site: www.vermelho.org.br

8.1.07

Rui Santana lança livro para reviver o talento do Barão de Itararé

Meus compadres e minhas comadres. O humor como resistência à intolerável ditadura era a arma bastante eficaz do jornalista Apparício Torelly (foto), autonomeado com o pseudônimo de Barão de Itararé, vereador eleito e cassado em 1947 pelo Partido Comunista. Enfrentou tanto a polícia secreta do Estado Novo, como a “democracia” pós-45 que colocou seu partido na ilegalidade.

Uma das suas máximas é que, cansado de apanhar ao ser preso, inventou a famosa frase "Entre sem bater", que acabou se tornando um corriqueiro lembrete de cortesia nas portas dos escritórios e também título do quarto livro (que tive a honra em prefaciá-lo) desse meu irmão escritor Rui Santana, amigo desde os tempos das militâncias estudantis, sindicais e políticas na Bahia.

Abaixo segue release sobre a obra.

Humor e ironia - 'Entre Sem Bater - Ditos e Não Ditos' O escritor baiano Rui Santana decidiu que seu quarto livro seria uma homenagem a um ídolo, o escritor e jornalista gaúcho Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, mais conhecido como Barão de Itararé, pseudônimo com o qual assinou muitos textos em publicações um tanto quanto irreverentes.

O livro “Entre Sem Bater - Ditos e Não Ditos” (assinado por Rui como “Barão de Irará”, uma referência ao município onde nasceu.

Conhecido por ser uma figura carismática e sarcástica a cada opinião lançada, suas frases, sempre carregadas de conteúdo nas entrelinhas, se tornaram famosas.

“Ele era um jornalista e humorista, por assim dizer, dos anos 20, 30, 40. Falava de política de uma forma que atingia a todos, porque colocava uma dose de humor nas críticas que fazia. Além disso, foi o primeiro a chamar atenção para o problema da febre aftosa, e chegou até a estudar sobre o assunto”, revela Rui, contando também que o “Barão” chegou a entrar na escola de Medicina, mas abandonou os estudos no quarto ano por conta de um derrame que sofreu.

O livro de Rui, como ele mesmo diz, fala sobre tudo. “Fala de política, de futebol, da Bahia, do carnaval e tem até receitas de comida. E isso tudo misturado com charges do Daniel Silva, para tornar o livro mais atraente, mais leve.

Esse ano o ‘Barão’ completa 35 anos de morte, e eu quero, com esse livro, mostrar o quanto os textos dele ainda são atuais, como ele tinha esse dom de saber falar sobre vários assuntos sem se tornar chato, quadrado ou entediante.

O bom humor, a ironia e o sarcasmo eram as armas dele na hora de mostrar a realidade do país nos textos que escrevia”, reforça o autor.

Quem se interessar em obter um exemplar entre em contato com o autor pelo e-mail: ruibaianode2@hotmail.com

6.1.07

NOVOS TEMPOS PARA A ORQUESTRA SINFÔNICA DA BAHIA - OSBA


Meus compadres e minhas comadres:

É com muita alegria que inicio o ano de 2007 podendo compartilhar com todos uma ótima notícia vinda da Bahia, mais precisamente da orquestra onde toquei por 11 anos e pude trazer de lá, guardado em mim, gostosas lembranças e muitas saudades dos tantos amigos que lá deixei.

A Orquestra Sinfônica da Bahia já mostra sintonia com as salutares mudanças políticas daquele estado e busca, com as experiências vitoriosas de outros povos somadas aos 22 anos de sua história, traçar os caminhos de sua travessia pelos novos tempos que enfim chegaram.

A notícia abaixo foi extraída do Portal VivaMúsica. Ei-la:

A Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA) promoverá neste sábado, 6 de janeiro, o seminário “OSBA: em busca de novos caminhos”, organizado e coordenado pelo pianista e novo diretor artístico da OSBA, Ricardo Castro. O evento acontece no Teatro Castro Alves, sede da orquestra, em Salvador, e conta com apoio da Secretaria de Cultura daquele estado.

O principal objetivo do evento é determinar as novas linhas de atuação a partir da mudança de governo. “Nossa meta é traçar novos caminhos para a orquestra, com base numa gestão democrática e participativa”, resume Castro, que é baiano.

A OSBA lançará um novo projeto de arte-educação baseado na bem-sucedida experiência da Fundación del Estado para el Sistema Nacional de las Orquestas Juveniles e Infantiles de Venezuela (FESNOJIV). Participa do seminário em Salvador uma representante daquela entidade, a Sra. Bolívia Bottome . Está confirmada a presença de profissionais renomados na área musical clássica do Brasil, como a gestora cultural paulista Cláudia Toni e o oboísta paranaense Alex Klein.

Fundada há 30 anos, a FESNOJIV atende crianças e jovens de baixa renda de toda a Venezuela, dando-lhes a oportunidade de estudar música e tocar em orquestras sinfônicas. Muitos talentos já foram revelados pelo programa, que atende hoje 250.000 crianças. A Venezuela tem 125 orquestras juvenis, 57 orquestras infantis e 30 orquestras sinfônicas profissionais para adultos, além de uma ampla rede de núcleos ou escolas de música.

A abertura do seminário será às 9h30. O público pode participar a partir de 11h45, quando será exibido o documentário “Tocar y Luchar”, sobre o programa da FESNOJIV, seguido de mesa-redonda com os participantes. O seminário será concluído com a apresentação das linhas de base da nova administração e direção artística da OSBA e exposição do plano geral de ação da Secretaria de Cultura para o setor.

O seminário “OSBA: em busca de novos caminhos” é mais uma boa iniciativa de organização e fomento de atividades orquestrais no Brasil. Importante lembrar o recente encontro organizado pela Osesp, em São Paulo, no último mês de dezembro, que possibilitou a criação da Liga das Orquestras Brasileiras.

Confira a seguir a programação do Seminário “OSBA: em busca de novos caminhos”:

9h30: Abertura
9h45: Pontos de Vista
Claudia Toni – Educação musical no mundo; música de concerto; direção executiva e estrutura das orquestras no Brasil.
Alex Klein – O Músico de orquestra; o Solista; o Professor; o Regente.
11h30: Pausa café.
11h45: Projeção pública do documentário “Tocar y Luchar”.
13h10: Almoço.
14h45: Mesa redonda com Bolívia Bottome, Claudia Toni, Alex Klein, Catalina Guevara e Ricardo Castro.
16h: Apresentação “OSBA: Em busca de novos caminhos”.